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História da Estrada Real


Texto e fotografia (exceto as creditadas): Marcelo JB Resende
Reprodução proibida

Se não fosse o ouro e os diamantes de Minas Gerais, o Brasil talvez não fosse este país continental. No início até mesmo a Coroa portuguesa desestimulava incursões no território, apesar dos relatos de índios que indicavam riquezas sem fim. Foi a cobiça motivada por tais riquezas que forçou homens rudes - por iniciativa própria e à revelia do rei - a enfrentarem a muralha da Serra do Mar e adentrarem em um território bravio, repleto de perigos. Não fosse o ouro e os diamantes, o Brasil continuaria a ser um país preguiçosamente litorâneo. A história da conquista das Minas Gerais é também a história dos caminhos que levavam ao eldorado, notadamente as "Estradas Reais."

 



 

Antes de ser paulista ou portuguesa, a Estrada Real é de origem indígena. As primeiras incursões por Minas, chamadas Bandeiras, seguiam o leito de "peabirus", denominação dada aos diversos caminhos utilizados pelos índios da América do Sul há séculos. Foi no contato com os índios que os paulistas se deram conta de que algo de muito valioso se escondia nos recônditos do Brasil. Não faltavam histórias sobre uma terra distante, onde o ouro brotava do fundo dos rios. No alto de suas montanhas podiam ser retiradas pedras de magníficas cores... O nome de uma dessas serras era Sabarabuçu.

Um desses peabirus era a trilha dos Guaianases (ou Caminho dos Guaianás), que partia do vale do rio Paraíba do Sul, passava pela garganta do Embaú e atingia a Serra da Mantiqueira, já em Minas. Estas primeiras Bandeiras deram origem ao Caminho dos Paulistas (ou Caminho Geral do Sertão). O bandeirante Fernão Dias, o famoso "Caçador de Esmeraldas", é uma referência desta época. Embora mal-sucedida, sua excursão (1674) desvendou e mapeou grande parte dos sertões de Minas. No trajeto foram surgindo paragens, povoações, muitas delas cidades hoje. Foram muitas expedições frustradas, até que no final do século XVII ouro em abundância foi descoberto nas imediações do Pico do Itacolomi.

O Itacolomi virou ponto de referência e aos seus pés nasceu Vila Rica (Ouro Preto). A descoberta fabulosa inaugurou uma migração sem precedentes na história do Brasil. Milhares de aventureiros buscavam a fortuna nas Minas Gerais, cujas terras eram generosas aos que chegavam primeiro. À Vila Rica somaram-se achados no viria a ser Mariana, Sabará, Congonhas... Acabava assim a letargia da Coroa Portuguesa: ou ela controlava a exploração ou veria "sua" riqueza ser subtraída. Era preciso regulamentar e taxar a extração, controlar o trânsito e despachar tudo para Portugal o mais breve possível. A "saída para o mar" ligava Vila Rica a Paraty, no litoral sul-fluminense. De lá o ouro seguia para o Rio de Janeiro para, finalmente, cruzar o oceano Atlântico. O Rio de Janeiro, até então um pacato e paradisíaco lugarejo, passaria, dada a importância estratégica, à capital da colônia (1763), em substituição a Salvador (Bahia).

 
 

Surgia assim o "Caminho Velho", a primeira estrada propriamente Real, aberta oficialmente pela Coroa. Era o único caminho "autorizado", com mais de 710 quilômetros de extensão, saindo de Paraty, passando pelo Sul de Minas e atingindo a região Central. Na época o trajeto até Vila Rica podia levar assombrosos 90 dias, em estrada precária e não-carroçável. O trânsito de carga se dava no lombo de mulas. Quem utilizasse outras vias de acesso cometia crime de "descaminho", com status de lesa-majestade. Registros (postos de fiscalização, fundição e recolhimento de impostos) foram instalados em pontos estratégicos. O ouro só podia circular em barras cunhadas com o brasão oficial, nunca em pó ou pepitas. Contudo todo o cuidado e "austeridade" não impediram o contrabando desenfreado, afinal era impossível controlar e vigiar tão vasto território. E assim "ladrão roubava ladrão", pouco importando se o ladrão era o rei ou um simples faiscador (garimpeiro rudimentar de aluvião, que não utiliza aparelhagem mecânica, apenas trabalho braçal).

Paraty era então um dos mais importantes portos do Brasil, despachando o ouro no início de seu apogeu. Possuia uma sociedade empoderada pelas riquezas de Minas Gerais, mas tamanha euforia não durou muito, nem mesmo uma década.

No trajeto entre o porto de Paraty e o porto do Rio de Janeiro, navios abarrotados de ouro e diamantes eram vulneráveis ao ataque de corsários e piratas. Em busca de uma rota mais rápida e segura, a Coroa determinou a abertura de uma nova via de acesso direto ao porto da capital. O Caminho Novo passou a vigorar na década de 1710, com consequente proibição do transporte de ouro pelo Caminho Velho. A população de Paraty protestou muito, mas de nada adiantou.

Na verdade já existiam trilhas rudimentares neste novo traçado desde o final do século XVII, mas foi somente com a autorização oficial que a rota foi definida, saindo dos fundos da baía da Guanabara, passando pela hoje conhecida e populosa Baixada Fluminense e subindo a serra do Tinguá, passando por Paty do Alferes e Paraíba do Sul (RJ), onde cruzava o rio de mesmo nome. Vencida a muralha de exuberante Mata Atlântica, o caminho seguia pelos sertões de Minas Gerais, semeando povoações que deram origem a cidades como Juiz de Fora e Barbacena.

 
 

Na localidade de Ouro Branco, no sopé da então Serra-do-Deus-te-Livre (assim chamada por causa dos assaltos) o Caminho Novo encontrava o Caminho Velho e seguia aproximadamente 50 quilômetros até Vila Rica. A viagem entre o Rio de Janeiro e Vila Rica, pelo Caminho Novo, durava por volta de 25 dias, um feito extraordinário se comparado ao trajeto antigo. A tarefa de abertura do Caminho Novo ficou a cargo de Garcia Rodrigues Paes, filho do famoso bandeirante Fernão Dias Paes, que levou sete anos na empreitada (por volta de 1704). Na década de 1720 uma variante do Caminho Novo foi criada, subindo a serra diretamente até Petrópolis (que deve sua origem a este "atalho") e de lá para Paraíba do Sul, encontrando o leito original da estrada. Esta variante - mais rápida e segura - era chamada Caminho do Proença (ou Caminho do Inhomirim) e iniciava-se no Porto Estrela, cujas ruínas ainda existem no município de Magé (RJ).

Como se não bastasse muito ouro, a aproximadamente 400 quilômetros ao norte de Vila Rica, na região do Serro e Diamantina, descobriu-se diamantes. Eram em quantidade tão impressionante que exigiu a criação do Distrito Diamantino, com regras próprias de administração e extração e que respondia não ao governador da capitania de Minas Gerais, mas diretamente ao rei de Portugal. Tornou-se lendária a figura do poderoso Contratador de Diamantes. A Estrada Real foi então prolongada até Diamantina (então chamada Tijuco), com o mesmo rigor e regras do Caminho Novo. Dá para imaginar que o contrabando era igualmente grande, inclusive pelos "descaminhos" clandestinos do norte, que passavam pela Bahia. O Caminho dos Diamantes (da década de 1720) se somava ao Caminho do Ouro, tendo Vila Rica como eixo central.

Com a exaustão das minas, na virada para o séc. XIX, a Estrada Real foi perdendo sua solenidade. Somente após a Independência do Brasil (1822) é que as antigas "estradas reais" ficaram livres para trânsito. A elas foram se encontrando estradas ordinárias, tendo alguns trechos caído em desuso e desaparecido, engolidos pelo tempo, pelas matas... Outros trechos viraram meros caminhos rurais, leitos de estradas de rodagem, ferrovias... Assim a história da Estrada Real meio que se "apagou"; muitos a percorriam sem ao menos saber que aqueles caminhos foram palco de tantas histórias. Estas histórias começaram a ser resgatadas somente no final do séc. XX, com o ressurgimento da Estrada Real, agora como produto turístico.



















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